“Nascido Desse Jeito”: A Nova Ciência Sobre Orientação Sexual

black-and-white-blur-depression-1817121.jpg

Um novo estudo sobre uma crescente evidência que demonstra que a narrativa predominante sobre orientação sexual - que é, a de que isso é geneticamente determinado - simplesmente não pode ser verdade. Ao invés disso, a ciência mostra que a orientação sexual de uma pessoa e a escolha de seus parceiros depende fortemente do desenvolvimento e da expressão pessoal ao que tange às possibilidades. Pessoas atraídas por outras do mesmo sexo deveriam ser, legal e culturalmente, livres em não concordar ou agir dessa maneira.

No mês de setembro, um time de cientistas do MIT e de Harvard publicaram, na Revista Science, um estudo de referência sobre a base genética na orientação sexual. O estudo, que foi baseado no exame do material genético de quase meio milhão de indivíduos, definitivamente refuta a ideia de que ser gay é uma condição inerente controlada ou fortemente influenciada por uma composição genética.

O estudo contém duas descobertas-chave. Primeiro, descobriu-se que o efeito que os genes que herdamos dos nossos pais (conhecido como “herdabilidade”) na orientação de pessoas que se atraem pelo mesmo sexo é muito fraca, sendo apenas .32 em uma escala de 0(nada) a 1(totalmente) de herdabilidade. Isso significa que o ambiente de desenvolvimento de uma pessoa - que inclui alimentação, família, amigos, vizinhança, religião e outras condições de vida - é duas vezes mais influente na probabilidade de alguém desenvolver atração pelo mesmo sexo do que os seus genes em si.

Segundo, refutando décadas de crenças generalizadas, o estudo afirmou que “não há uma única genética determinante (muitas vezes chamada de ‘gene gay’ pela mídia)” que cause o comportamento de atração pelo mesmo sexo. Ao contrário, “as variantes envolvidas são inúmeras e se espalham pelo genoma.” Cada uma dessas variâncias aumenta, de forma muito pequena, a propensão de uma pessoa ter comportamentos homossexuais. Em termos científicos, a orientação e o comportamento de atração pelo mesmo sexo são altamente poligenéticos.

A lógica desses dois resultados - baixa herdabilidade e alta poligenia - demonstra, claramente, que a principal narrativa cultural sobre a orientação sexual - que vê o homossexual como uma pessoa pertencente a uma classe biologicamente distinta de “nascidos desse jeito” - simplesmente não pode ser verdade.
Baixa herdabilidade, uma descoberta consistente em relação a estudos anteriores sobre genética, sempre sugeriu que o determinismo pode não ser verdade. Mas alta poligenia traz algo a mais: ela afirmativamente exclui a possibilidade de determinismo. Uma disposição genética baseada em dezenas de marcadores pelo genoma significa que, praticamente, todos os seres humanos possuem essa disposição, ou grandes porções dela. Em outras palavras, as pessoas gays possuem um perfeito genótipo humano; eles não são geneticamente diferentes dos outros seres humanos de nenhuma forma significativa. Consequentemente, o desenvolvimento da orientação sexual e a escolha de parceiros não consistem essencialmente na elaboração de alguma disposição genética controladora, mas - em um grau mais alto - consiste no desenvolvimento e expressão da autonomia pessoal ao que diz respeito às próprias possibilidades sexuais.

A rejeição do determinismo da orientação sexual poderia aumentar a tolerância?

Os cientistas por trás do estudo não medem palavras sobre essa conclusão. A primeira autora deste estudo, Andrea Ganna, disse ao New York Times, “basicamente, será impossível de predizer a atividade ou orientação sexual de alguém apenas olhando a genética.” Um artigo que acompanha o estudo reconhece que seus resultados contrariam a “inclinação de reduzir sexualidade a determinismo genético,” ao invés disso, confirma que “sexualidade é… formada e regulamentada por estruturas culturais, políticas, sociais, legais e religiosas.” Outros cientistas, que são gays, envolvidos no estudo, opuseram-se publicamente à publicação do estudo, afirmando que tais resultados poderiam ser “mal interpretados” para o “avanço das agendas de ódio”. Essas declarações mostram uma conscientização, ainda que indesejável, das implicações do antideterminismo dessas conclusões de estudos.

Louvavelmente, os principais autores desse tudo, alguns deles gays, resistiram ao ímpeto de suprimir evidência científica em prol de um expediente político. E eles estão certos de fazer isso, uma vez que o declínio da falsa crença do determinismo na orientação sexual e em comportamentos relacionados podem levar ao aumento da tolerância e aceitação.

Em muitas partes do mundo, o artigo que acompanha o estudo aponta que sanções legais buscam impor a heterossexualidade aos que não a desejam. Mas nos Estados Unidos e em outras sociedades ocidentais liberais, tende-se para o problema oposto. Em tais lugares, a dificuldade de liberdade atual não é, essencialmente, das pessoas que querem se identificar como gay ou lésbica, mas das pessoas que querem evitar ou resistir a tais identificações para si mesmas.

A decisão constitucionalizante de 2015 da Suprema Corte Americana sobre casamento homoafetivo foi baseada, em parte, na crença de que a orientação sexual homossexual refletia uma “imutável natureza que dita[va] que o casamento do mesmo sexo é o único real caminho para essas pessoas nesse compromisso profundo.” O determinismo lógico dessa decisão empoderou aqueles que antes defendiam que homossexuais poderiam casar com alguém do mesmo sexo, mas que agora defendem a ideia de que se um homossexual casar, ele deve casar com alguém do mesmo sexo.  Vários esforços legislativos e judiciais estão, atualmente, sendo realizados para criminalizar terapia voluntária ou para negar a legitimidade de um adulto que experimentou algum nível de atração pelo mesmo sexo, mas que escolhe não se engajar em relações homoafetivas (ou que não se identificam como gay ou lésbica). A justificativa é que as pessoas que assim o fazem estão negando sua natureza imutável. Agora, nos Estados Unidos, pessoas homossexuais são livres para se identificar como gays e casarem-se com alguém do mesmo sexo. Ainda assim, muitos tiram o direito dessas mesmas pessoas de negarem a identificação como gay e de se casarem com alguém do sexo oposto, pois se eles assim o fizerem, a premissa dos opositores é de que tais pessoas estarão cometendo uma grande violência a quem eles “realmente” são.

Estudo Preliminar Salienta a Maleabilidade da Identidade Sexual

Na prática atual, orientação e comportamento sexual exemplificam a diversidade de identidades que as pessoas tomam quando elas são livres para explorar um rol, praticamente, ilimitado de alternativas eróticas. Surpreendentemente, a baixa herdabilidade da orientação sexual encontrada no estudo de Ganna é idêntico a outro estudo relevante sobre genética - uma meta análise exaustiva de dois estudos, praticamente iguais, realizados por um time de cientistas liderados por Tinca Polderman - e que foi publicado quatro anos antes no jornal Nature. Assim como no estudo de Ganna, o de Polderan estimou a herdabilidade na orientação sexual em apenas .32. A replicação do mesmo resultado fraco em dois estudos usando diferentes métodos e medidas é impressionante. Ambos estudos também encontraram herdabilidade maior para homens do que para mulheres.

De acordo com o estudo de Polderman, um time de pesquisadores de sexualidade interpretou a replicação do baixo nível de herdabilidade para sugerir que, enquanto atração sexual interna pode não ser socialmente maleável, a adoção de uma identidade sexual (sem restrições) por atração interna - homossexual, heterossexual ou outro - está bem dentro da faixa de desenvolvimento para a maioria das pessoas. “Claro que é possível”, eles escreveram, “mudar a orientação sexual de um público. E uma pessoa pode, certamente, fazer escolhas quanto a engajar-se ou não na atração por pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto, ou tornar-se celibatária.” Eles notaram que esses tipos de escolhas e terapias utilizadas para os apoiarem são muito comuns entre os religiosos e “provavelmente explica as alegações de ex-gays e ex-lésbicas que não vivem mais a ‘vida homossexual’”. Como exemplo, eles citam o artigo de 2001 do psiquiatra Lee Beckstead, “Curas versus escolhas: Agendas nas terapias de reorientação sexual.” Nós também poderíamos citar os livros Jephthah’s Daughters e Changed: #OnceGay Stories, cada um deles apresentando dezenas de casos de pessoas que saíram de uma identidade e de um comportamento sexual.

Dados confirmam que a maioria das pessoas com atração pelo mesmo sexo teve relacionamentos com o sexo oposto em algum momento, e a minoria mantém casamentos heterossexuais duradouros. No General Social Survey (perfil estatístico bienal da população americana fundado pela Fundação de Ciência Nacional), 57% das pessoas que se identificam como gays (40% homens, 78% mulheres) reportam que tiveram um ou mais parceiros do sexo oposto desde os dezoito anos. E 4% dos gays dizem ter tido *apenas* parceiros do sexo oposto no último ano.

Em 100,300 entrevistas que perguntam sobre a orientação sexual nas pesquisas de 2013-2015 da National Health Interview Survey, 13% dos gays comprometidos tinham parceiros do sexo oposto. Consistente com as motivações religiosas apontadas acima, a maioria (88%) dessa porcentagem minoritária de 13% estava em um casamento heterossexual. Senso que cerca de 35.6% possuíam filhos.

Coagir o Comportamento Sexual é Errado

As descobertas congruentes dos estudos de Ganna e Polderman refutam fortemente o impulso de restringir ou coagir as escolhas dessas pessoas quanto à identidade e comportamento homossexuais. Se gays e lésbicas são geneticamente normais, qual a base para proibir que outras pessoas geneticamente normais se recusem a se engajar em comportamentos homossexuais? Assim como esses estudos concluíram, a maioria das pessoas que possui um genótipo parecido ao dos homossexuais acaba, por várias razões de ambiente social ou de desenvolvimento ou de princípios pessoais, não se engajando em relacionamentos do mesmo sexo. Não deveria essa maioria também ter igual liberdade e legitimidade de assim escolher então?

Pessoas civilizadas condenam a tentativa de impor um comportamento social em alguém que não o deseja em certo nível pessoal. Por que, então, a mesma coerção é aceitável em um nível social? Se, de algum modo, fizesse sentido a premissa de que pessoas gays assim o são por determinação genética, na ausência de uma diferença genética, é impossível manter racionalmente que a tolerância dos comportamentos homossexuais requer a intolerância dos comportamentos heterossexuais.


*Esse blog foi originalmente publicado, no Public Discourse: The Journal of The Witherspoon Institute e foi reproduzido com permissão.